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O ceratocone é uma deformação corneana de caráter progressivo, caracterizado pelo aumento da curvatura e afinamento corneano. O ceratocone costuma manifestar-se na adolescência e evolui até por volta dos 30 anos. A incidência na população em geral pode alcançar 0,5%, sendo que, quase sempre, acomete os dois olhos.
O que o portador da doença percebe clinicamente são os frequentes aumentos do grau de astigmatismo a cada exame oftalmológico realizado, ocasionando posteriormente a queda da qualidade da visão, mesmo com o uso de óculos, sendo necessária uma adaptação de lentes de contato rígidas para obtenção de uma melhor qualidade na visão. Em casos muito avançados, torna-se impossível o uso de lentes, pois elas caem do olho com frequência, reduzindo significativamente a qualidade da visão.
Existem graus distintos de evolução da doença e o tratamento existente é sempre voltado para a reabilitação visual. Nos casos iniciais da doença, o uso de óculos é capaz de proporcionar uma visão normal. Já nos casos mais avançados, é necessária a adaptação de lentes de contato rígidas, específicas para o ceratocone, na intenção de alcançar uma visão que atenda às necessidades de uma pessoa portadora jovem e ativa. Dispomos atualmente de alternativas, como os implantes de anéis intracorneanos para redução de astigmatismo avançado, propiciando uma melhor adaptação de lentes e, em consequencia, a melhoria da visão.
A grande esperança atualmente, no entanto, está no tratamento precoce da patologia nos pacientes mais jovens e em fase inicial da doença através do Crosslink corneano. O crosslink é uma técnica que visa o fortalecimento da córnea, estrutura que apresenta as alterações biomecânicas que conduzem ao abaulamento e afinamento da mesma. Com o objetivo de compactar as fibras corneanas, através do aumento do número de ligações covalentes do colágeno corneano e endurecer a córnea, surgiu no Brasil, nos últimos anos, o tratamento através do crosslink. Ainda em fase de estudos e já liberado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o procedimento é bastante promissor, sobretudo nos casos iniciais, pois o objetivo não é a reversão do quadro e sim a estagnação do processo. Como sabemos, cerca de 70% dos casos de transplante corneano no Brasil ocorrem em função do ceratocone.
É importante que o paciente e sua família compreendam a diferença entre enxergar bem, com o auxílio de recursos ópticos (lentes e/ou óculos), e investir na prevenção da evolução da doença. O que nós especialistas queremos é proporcionar ao paciente a capacidade de enxergar bem e, em paralelo, realizar a prevenção da evolução do processo, evitando que o afinamento progressivo conduza à necessidade de transplante corneano. Nenhum método óptico interfere na evolução do ceratocone.
Como funciona o Crosslink corneano:
É uma técnica não dolorosa, realizada em centro cirúrgico, que consiste na aplicação de Riboflavina (ou vitamina B2) sobre a superfície do olho durante 30 minutos e, em seguida, na exposição da córnea à radiação ultravioleta também durante 30 minutos. Ao final do procedimento, uma lente terapêutica é colocada e deverá permanecer no olho por cerca de cinco dias e cinco noites. Após a retirada da lente, a rotina do paciente retorna ao normal, havendo uma leve redução da visão no decorrer do primeiro mês pós-operatório. Conforme descrito acima, trata-se de um procedimento pouco invasivo, realizado de forma confortável e que representa uma grande esperança para toda a comunidade oftalmológica e para os portadores de ceratocone inicial, principalmente os mais jovens, pois o objetivo é promover a compactação da córnea e evitar a evolução do caso para o transplante de córnea. Obviamente, muitos estudos ainda serão necessários, mas é importante lembrar que, em diversos centros da Europa, o procedimento é aplicado há 13 anos e com excelentes resultados.
Nos casos de ceratocone muito avançados, com afinamento significativo da córnea e opacidade intensa ou já estabilizados, não serão beneficiados pela técnica do crosslink, já que a mesma visa evitar, justamente, o estabelecimento das alterações mencionadas. Nestes casos, há a possibilidade de transplante corneano.
Dra. Mônica Freitas – CRM 7.607
Médica oftalmologista e diretora presidente do Instituto de Olhos Freitas
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